Academia Paulista de Letras completará 100 em 2009

Próxima de completar 100 anos, a Academia Paulista de Letras (APL) ainda é pouco conhecida entre os paulistanos. Fundada em 27 de novembro de 1909, pelo Dr. Joaquim José de Carvalho, secretário geral e fundador da cadeira nº 4, a APL é constituída por 40 cadeiras, seguindo o modelo da Academia Francesa, fundada em 1634. Os imortais são escolhidos através de um processo de inscrição dos interessados, que “não precisam ser graduados, apenas serem paulistas e terem obras publicadas”, segundo o diretor da Biblioteca e acadêmico há mais de 25 anos, Erwin Theodor Rosenthal. Desde sua fundação, 151 acadêmicos já fizeram parte da Academia, sendo a última mulher a integrar o grupo dos imortais paulistas a escritora de livros infanto-juvenis, Ruth Rocha, em 26 de outubro de 2007. Foi a primeira vez na história da APL que uma autora de livros exclusivamente voltados às crianças, ela tornou-se uma imortal com um total de 130 títulos publicados. Outro membro representante da literatura infantil na APL foi Monteiro Lobato. Recusado de início e desistente de um convite posterior pela Academia Brasileira de Letras, como protesto à nomeação de Getúlio Vargas a uma das cadeiras. Este que o prendeu por ocasião da questão do petróleo. Suas obras infantis não foram valorizadas. Os membros da Academia Paulista de Letras podem assumir também uma cadeira na Brasileira. Na história das Academias isso ocorreu três vezes: Miguel Reale, bacharel em Direito e já falecido em 2007, João de Scantimburgo, jornalista, escritor e filósofo, entre outras profissões, e a escritora Lygia Fagundes Telles. Uma vez eleito, o acadêmico integra a Academia até sua morte, quando a cadeira é disponibilizada para novos membros. Atualmente, 39 escritores compõem o grupo, já que uma cadeira está vaga, a de número e 22. No último dia 29 de maio, o autor de novelas Walcyr Carrasco ocupou a cadeira de número 14, que pertencia ao poeta Cyro Pimentel, falecido em fevereiro. Entre esses acadêmicos, somente seis são mulheres: além das duas acima citadas, fazem parte Anna Maria Martins, Ada Pellegrini Grinover, Myriam Ellis e Esther de Figueiredo Ferraz. Fundadora da APL, Priscilliana Duarte de Almeida era a única integrante do sexo feminino a fazer parte da Academia no ano de 1909. Cada cadeira da instituição possui um patrono, escolhido pelos fundadores e herdado pelos membros posteriores. O decano, membro mais antigo da Academia, é Paulo Bonfim, poeta e ocupante da cadeira 39. A Academia é uma instituição cultural privada, já que não se mantém com o dinheiro público. O prédio sede foi uma doação do Governo Federal, e a APL ocupa três andares. Os nove restantes são alugados pela Secretaria de Educação de São Paulo, e a arrecadação do aluguel é o que mantém a instituição. Uma vez por semana, às quintas-feiras, o grupo reúne-se para discutir assuntos que sejam de interesse de todos, como problemas financeiros, convites para eventos e temas culturais, como o fechamento de bibliotecas públicas, um dos encontros do mês de abril. A reunião ocorre com a presença do presidente, secretários e tesoureiros, que também são acadêmicos. A Academia possui um símbolo que foi inspirado em um verso de Olavo Bilac, a Última flor do Lácio. O emblema que é chamado de Eglantina, e representa a língua portuguesa, fazendo referência a sua origem latina. A rosa tem cinco pétalas, assemelhando-se a uma flor de Lis. Sua biblioteca possui um grande volume de obras que podem ser consultadas pela população, desde que registre o motivo da pesquisa. Há também um acervo com obras raras, voltado exclusivamente aos acadêmicos. Entre as raridades estão cartas pessoais de D. Pedro, manuscritos de D. Pedro II, quando ele tinha quatro anos e a primeira edição de Padre Antônio Vieira, datado de 1688. O mais antigo da coleção é o Código Civil e Criminal Italiano, de 1561. “Só não me perguntem como isso veio parar aqui”, disse Prof. Erwin Theodor. Uma curiosidade deste acervo é possuir o maior número de obras camonianas, em idiomas como português, francês, inglês e alemão. Tentando se modernizar, a Academia, há cerca de quatro anos, passou por um processo de digitalização dos 70 mil livros de sua biblioteca, que foi informatizada com o apoio de empresas. Sobre essa iniciativa, Prof. Erwin afirma que projetos já foram propostos por outros presidentes para aumentar a visibilidade da instituição na sociedade e despertar o interesse nas pessoas. Segundo ele, essas medidas vieram para reafirmar o propósito da Academia: “cultivar a língua e a literatura”. Alguns professores que já lecionaram na Universidade Mackenzie fazem parte da APL, como os professores Massaud Moisés e Ives Gandra da Silva Martins.

Por Thaís Souzza e Fernanda Pierina

Albergue Modelo Espaço Luz

Sábado à tarde, Praça Princesa Isabel, 7577, Albergue Modelo Espaço Luz. Uma porta pesada de um prédio de quatro andares se abre para uma realidade pouco conhecida para os pedestres da região. É Luis Cláudio quem apresenta o local, os moradores e um pouco de sua história. Com 33 anos, três deles passados em São Paulo, o gaúcho eletricista amador viveu durante oito meses na Baixada do Glicério, no Pátio do Colégio e no Anhangabaú, sempre nas ruas. Dessa experiência, ele aprendeu que as pessoas que estão em situação de rua são mais unidas, entretanto, são mais radicais em seu julgamento, “já que não têm nada a perder”, além de ser “um lugar para as drogas”, afirma Luís.
Luís Cláudio, que vive neste albergue desde sua inauguração, em outubro de 2004, é também porteiro e monitor voluntário. Por conhecer bem o funcionamento do local, ele descreve o dia-a-dia do Espaço Luz: é uma moradia masculina, em que os alojados vêm encaminhados de outros albergues. Todos os moradores devem estar cadastrados e respeitarem as regras internas, que incluem o horário de entrada (das 16h00 às 20h00) e saída (até às 9h00). Há um limite de três faltas consecutivas, que, se ultrapassadas, resultam na expulsão do morador. A maioria dos albergados trabalha durante o dia e quando retorna tem direito ao café da tarde, janta e café da manhã, além do pernoite.
Em um dos onze quartos do local, com capacidade para doze pessoas cada, no terceiro andar, dorme Fradique. Paulistano, de 25 anos, foi criado em Curitiba e está há cinco vivendo na capital. Depois de ter perdido os pais aos nove anos, Fradique já morou em orfanato, na rua e em albergue, nunca usou drogas e viu na música uma maneira de transmitir seus sentimentos e suas experiências. Tem um sonho: escrever um livro juvenil evangélico em forma de contos baseados nas histórias da Bíblia, em que será acrescida a sua experiência de vida na rua e na música. Compositor, músico, trompetista e jogador de futebol. Fradique já passou quinze dias na África, “jogando e namorando”, explica ele, só não se profissionalizou por ser míope. A propósito, seu time do coração é o São Paulo.
Filho de alemães, um dos moradores mais idosos do local, Sr. Adolf, com 72 anos explica que aos 67 anos resolveu morar em um albergue. “Eu nem sabia que existia albergue, senão teria vindo antes”. Quando questionado sobre o motivo de ter ido viver em um albergue, ele desconversa e diz que não gosta de falar sobre o assunto, diz apenas: “foi dívida em banco”.
Qual é a maior dificuldade de viver em um albergue? “Lidar com os diferentes pontos de vista e com a desunião dos albergados”. Quem responde a essa pergunta é Rogério, 35 anos, paulista do Grande ABC e cozinheiro. Trabalha em um restaurante no Morumbi e relata o preconceito desta “São Paulo de duas faces, de ricos e pobres”, que atinge principalmente os moradores de albergue. Rogério, que morou cinco anos nas ruas, e há sete não tem contato com sua família, conta, que ao procurar emprego, sofreu discriminação por ser albergado. Explica que para conseguir o atual emprego, não revelou seu local de moradia.
Durante a apresentação do espaço, com lotação máxima, Luís relata que para a reinserção social desses albergados, deveria ser feito um projeto que investisse em quatro pontos básicos: habitação, saúde, educação e saúde. Quando questionado se são procurados por governantes, para saber de suas necessidades, Luís afirma: “isso é hipocrisia, porque os programas sociais são frágeis, e como não visam uma melhora a longo prazo, apenas servem para projetar a eles mesmos. O Governo não tem interesse de construir cidadãos de bem.”
Opinião semelhante tem a diretora do Espaço Luz, Edinalva, que reclama a falta de acompanhamento psicológico e de recursos para trabalhar de uma forma mais justa com os moradores. Ela comenta o preconceito que enfrentam por parte da sociedade e até do próprio sistema público de saúde, que quando chamado para socorrer algum morador, o tratam de maneira hostil.
Duas horas e quarenta minutos e muitas histórias depois, o que fica é o sentimento de que todos somos iguais, o que nos diferencia são as oportunidades de cada um.

Matéria realizada por Fernanda Pierina e Thaís Souzza